COISAS DE CASAL – PARTE II

– Pode me servir uma bebida?

– Acabou aquele uísque que você gosta. Como não me deixou o cartão, não comprei outro. Pode ser aquele que fica no canto do bar, mas que quase não te vejo beber dele?

– Pode ser. Se eu partir para a cerveja, serão varias. Não estou legal hoje…

– Problemas no serviço?

– Sim, como sempre. – E já desconversando, prosseguiu. – Não se preocupe, eu mesmo compro meu uísque preferido amanhã. Aproveito a minha hora de almoço para mudar um pouco os ares e sair de dentro daquela empresa.

– Foi alguma coisa grave? – e entregou-lhe o copo, que ele pegou e virou com um desejo incontido à boca.

– Nada demais. Pegue por favor o controle do aparelho de som para mim. – Ligou o aparelho, colocou uma seleção musical relaxante, e tentou ignorar o restante da humanidade. – Poxa vida, que esposa pegajosa com quem ele casara. Sempre com aquele interrogatório interminável: ‘como foi’, ‘onde é’, ‘parece-se com quem’, as perguntas não tinham limites. Ele só queria esquecer aquele dia maldito, de mais cortes na empresa, de mais ameaças de dispensas, de mais cobranças por metas inatingíveis, será que ela não percebia a pressão que ele sofria? Que ele precisava chegar em casa e ter um pouco de paz para beber e tentar relaxar até o sono vir?

A televisão até estava ligada no outro cômodo onde ela se encontrava. Ela parecia com sua atenção fixada à tela, mas na verdade sequer fazia ideia do que estava sendo exibido. Seus pensamentos estavam perdidos em outra dimensão muito distante dali …

“Será mesmo que ele não consegue enxergar tudo o que eu faço para ele? Cuido dele, da casa dele e dos filhos dele com o máximo de carinho possível. Administro a casa e os assuntos familiares de forma que ele não precise se preocupar com absolutamente nada do que ocorre aqui. Simplesmente apresento tudo relativo ao lar resolvido para ele, ou dependendo apenas de um mísero sim ou não dele, e quando faço uma pergunta inofensiva seu trabalho, recebo dele um olhar de desprezo que me desconcerta por inteira, como se eu fosse uma alcoviteira querendo bisbilhotar sua intimidade … sou sua esposa, mas é tão difícil perceber isso? Não vou chorar dessa vez, não vou chorar. ”

“Nem quero pensar em intimidades, então. Já me faz lembrar da frieza e do descaso dele para comigo de uns tempos para cá. Ah! Quanta saudade daquele homem carinhoso, um verdadeiro cavalheiro no convívio social, e um touro insaciável entre quatro paredes. Buscava a todo custo meu prazer, e era duas vezes delicioso fazer amor com ele; uma pela sensação prazerosa de me entregar inteira para ele, e outra de ver o delírio satisfatório em seus olhos ao me ver gritando descontrolada diante do clímax. Hoje não vejo nem sombra deste homem em minha cama. Nas raras vezes em que me procura, esta alterado pelo álcool, e vê-se que não tem o menor desejo por mim, mas que está simplesmente satisfazendo uma necessidade fisiológica, como almoçar ou beber um copo com água …. Eu me olho no espelho todos os dias, não estou com o corpo tão diferente de dez anos atrás, sou vaidosa, me cuido, mas parece que me deito com um bloco de gelo e não com o homem que jurei amar até que a morte nos separasse…. Não vou chorar desta vez, não vou chorar…”

Ainda estava absorta em seus pensamentos quando ouviu ele colocar o copo na pia. Passou por ela e a avisou entredentes que iria se deitar. Mais uma noite como tantas outras nestes últimos anos. O que estaria acontecendo? O que ela poderia fazer para reverter aquela situação, se é que a mesma ainda tivesse conserto?

Ele se deitou e não pôde deixar de pensar, já um tanto sonolento, mas com a mente ainda desperta a ponto de conjecturar consigo mesmo sem ter dúvida de que não havia sido apenas um sonho:

“O mais difícil de vir deitar e sentir o desprezo por mim em seus olhos. Parece mais que ela estava encarando um corvo fedorento por ter se revirado numa carniça imunda do que o homem que conheceu e se apaixonou há mais de dez anos. Admito que relaxei muito nos meus cuidados pessoais. Engordei, bebo muito mais que antes, agora fumo, coisa que eu não fazia antes, mas nunca deixei faltar nada nesta casa, nem para ela, nem para as crianças, que, por sinal, estão fortes, saudáveis e bem cuidados. Tudo isso tem seu preço, e eu me dispus a pagar este preço pelo bem da minha família. Prova de que venci esta batalha é ela mesma que, dez anos depois, está tão bela, jovem e formosa quanto quando nos conhecemos. E me orgulho de ter dado todo o suporte para isso. Mas, parece que ela prefere “usar” todo este belo corpo com outro alguém. É, é isto mesmo que penso! Estou sendo traído. Trocado por outro homem. Passado para trás. Estou certo disso, e o modo como ela me olha, como fez a pouco, antes de eu vir deitar só aumenta minha convicção disso. Pois bem, se ela pensa que vou agredi-la, ou matar o amante dela com requintes de violência, se enganou completamente. Prefiro muito mais o sabor da vingança na mesma moeda. E é por isso que há um bom tempo tenho a Milena ao meu lado. Garota jovem, exalando o frescor da pós-adolescência, um furacão debaixo dos lençóis, mal dou conta de acompanhar seu ritmo. Ah! Só de me lembrar da rigidez da pele, dos seios, do bumbum, minha mente entra em estado de alerta máximo, o corpo formiga da cintura para baixo, e a boca saliva sentindo a falta do seu beijo. Isso sem contar o jeito carinhoso com que me trata, com que me manda bom dia enviando uma foto só com a lingerie que dormiu a noite, as besteirinhas que me diz a mesa quando saímos para almoçar e como é ágil com as mãos quando invento uma reunião de última hora na empresa que se estendeu só para irmos no cinema e ficarmos nos bolinando nas cadeiras das últimas fileiras. Como ter desejo por uma esposa que não me dá atenção, me trai e reclama do meu corpo, tendo a Milena ao meu lado, que nunca abre a boca para nenhum comentário sequer, a não ser, claro, que eu atrase ou esqueça de sua “mesada mensal” ou quando digo não a qualquer pedido (despretensioso, eu sei) de um par de sapatos novos, ou um vestido, ou ajuda com algum boleto vencido que surgiu “sabe-se lá como” repentinamente no meio do mês e ela não tem a quem mais recorrer, afinal, não tem amigos homens, e as mulheres sentem inveja dela. Nestes casos a novinha se transforma em fera. Já chegou mesmo ao ponto de me chamar de ‘velho barrigudo’ e cortar o contato comigo. Depois, claro, não resistiu à minha falta, me procurou dizendo que era culpa dos hormônios, pois estava próxima de seu período menstrual, me pediu desculpas, eu aceitei, pois, gosto da companhia da pequena. Paguei o boleto, aproveitei e fiz um mimo a ela com uma linda sandália de salto, e estou certo de que estamos cada dia mais ligados por nossos laços de afeição mútua. ”

A esposa deitou-se ao seu lado, de costas para ele. Como costumeiramente fazia. Ele também se virava para o outro lado sempre que isso acontecia, porém, naquela noite resolveu abraçá-la assim por trás. Sentiu o calor do seu corpo, a curva acentuada da cintura bem feita, que terminava num quadril largo e imponente. Correu seu braço ali, e sentiu a firmeza do bumbum de sua mulher, quase tão firme quanto o de Milena. Ela sentiu os carinhos e correspondeu, encaixando mais seu quadril entre as pernas dele, sentindo imediatamente seu membro responder aumentando de volume, como se a quisesse preencher inteira. Até então a comunicação entre os dois estava restrita ao campo da movimentação corporal, mas a puxada mais forte que ele deu em sua cintura com uma mão, travando o encaixe do quadril dela nele, junto com o aperto um tanto quanto selvagem dele, com a outra mão em seus seios fez com que ela deixasse escapar um gemido mais profundo, o que foi entendido por ele como uma rendição de imediata para sua posse e ataque. E foi o que ele fez. Não por uma simples necessidade física, o que até então não o afligia, até em virtude do dia complicado que teve. Era por desejo mesmo. Aquele perfume suave de óleo de amêndoas com sabonete não poderia ter combinado melhor. Foi como se naquele momento algo animalesco tivesse sido despertado nele e ele precisasse possuir aquela mulher, aquela sua mulher já por tantos anos e que ele parecia não se dar mais conta disso, nem que precisasse usar da força para que aquela maravilha que estava ao seu lado na mesma cama fosse sua. Mas nada disso seria necessário. Os gemidos compassados de sua esposa ante as suas investidas e os indícios de seu corpo úmido e ardente era mais que revelador do desejo descomunal que ela também sentia por ele nesse momento. Se existe harmonia completa e encaixe perfeito entre dois seres, era possível ser vista a sua definição naqueles dois seres. Quem os visse se amando não os tomaria por um casal de pelo menos uma década de convivência, filhos criados e problemas recorrentes a todo casal com uma década de convivência e filhos criados, antes, pensaria tratar-se de dois adolescentes que após driblarem inúmeros obstáculos interpostos ao seu amor, se viam naquele momento livres para deixar que seus corpos falassem por si só, na muda linguagem do prazer, o quanto se amavam.

 A manhã raiou e ambos nus, quase perderam a hora de seus respectivos compromissos. Tomaram café da manhã juntos, trocando olhares tal qual recém-casados, segurando um na mão do outro e reforçando as juras de amor. Ele disse a ela que, dependendo da movimentação do dia, tentaria vir almoçar com ela, o que ela demonstrou o quanto gostou beijando-o ternamente nos lábios.

Ao chegar no escritório, ainda com o gosto o beijo da esposa na boca, ouviu a notificação no celular: era Milena, enviando-lhe uma foto, nua em pelo, os bicos dos seios eriçados, com a legenda: Bom dia meu amor. Olhe com fico de pensar em você! Que tal cobrir está pequena boneca nua com um lindo vestido que achei numa pechincha ontem? Vai adorar me ver tirando ele para você…

Sua real vontade era manda-la à merda, mas sua manha estava tão perfeita que ele simplesmente ignorou a mensagem, silenciando o contato de Milena pelas próximas oito horas…

Enquanto isso, em sua residência:

– Alô? É você meu amor?

– Alo! Sim, sim sou eu, sabe que só eu atendo a este número.

– Sim, eu sei, mas só quis me certificar, deixa de me tratar assim, amor … “ele” já saiu?

– Claro que sim. Ou eu fiquei louca de vez de te atender com ele estando aqui?

– Louco estou ficando eu de desejo em você a cada vez que me maltrata assim. O que mais quer fazer com seu cachorrinho?

CRÉDITO DA FOTO: COISAS DE CASAL, PARTE II
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